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Quando a “loucura” vira desculpa para a violência contra mulheres

Quando a “loucura” vira desculpa para a violência contra mulheres

Quando a “loucura” vira desculpa para a violência contra mulheres

Família de Pedro Henrique, ex-participante do BBB26, alega “desorientação mental” após caso de importunação
Por Gabriela Nassif

Em julho de 2025, Matteos França Campos foi preso por assassinar a própria mãe por motivos financeiros. Em agosto do mesmo ano, o ex-jogador de basquete Igor Eduardo Pereira Cabral foi preso por agredir a namorada com mais de 60 socos dentro de um elevador.

Ambos os casos têm uma coisa em comum: quando os acontecimentos vieram à tona, a defesa dos autores alegou que os mesmos estavam em surto psicótico no momento dos crimes.

O tema voltou a ganhar relevância com a participação de Pedro Henrique Espíndola no Big Brother Brasil 2026. O ex-brother desistiu do reality após tentar beijar outra participante sem consentimento. Fora do programa, a família de Pedro afirmou que o mesmo estava em “desorientação mental severa”. Posteriormente, Pedro Henrique Espíndola foi internado em uma clínica psiquiátrica no interior do Paraná, na última quarta-feira (21/1).

Mas, afinal, o que está por trás da justificativa de “loucura” quando homens cometem crimes contra mulheres?

Do ponto de vista clínico

Ainda que atípico, é possível que uma pessoa leve uma rotina estável, sem histórico de crises, e apresente um “surto de insanidade”.

“Isso passa a ser mais provável quando a pessoa está sob influência e/ou interação de substâncias psicoativas, lícitas ou ilícitas”, afirma o psiquiatra forense Hewdy Lobo Ribeiro. O especialista explica que, nesses casos, o surto pode ser desencadeado por múltiplas causas, sendo o histórico familiar um dos fatores de risco a serem avaliados.

Na prática, de acordo com a advogada especialista na defesa da mulher, Bruna Kusumoto, essa alegação não se sustenta na imensa maioria dos casos.

“Em minha experiência, a investigação forense comprova que grande parte dos agressores sabe exatamente o que está fazendo. Eles escolhem o momento, avaliam o risco, tentam se justificar e, depois, fogem, mentem ou silenciam”, afirma.

É melhor ser tratado como psicótico do que assumir os próprios atos?

“Ao longo da minha atuação profissional, essa justificativa se repete com uma frequência inquietante”, diz a advogada. Para ela, a estratégia aparece tanto no discurso jurídico quanto no debate midiático.

Em vez da alegação explícita da honra ferida, passa-se a falar em colapso emocional, instabilidade psíquica e perda momentânea de controle.

“O agressor deixa de ser visto como alguém que escolheu violentar e passa a ser percebido como alguém que ‘perdeu o controle’, quase uma vítima das próprias emoções”, explica.

Sob a ótica clínica, Hewdy ressalta que essa alegação decorre, em grande parte, de mecanismos psicológicos defensivos, como a tentativa de reduzir a culpa e externalizar a responsabilidade, além de uma compreensão leiga que confunde descontrole emocional intenso com doença mental.

Do ponto de vista jurídico, Bruna explica que um réu considerado inimputável — ou seja, aquele que, por insanidade mental, não consegue compreender a ilicitude de seus atos — não recebe pena de prisão, mas uma medida de segurança. Já o semi-imputável pode ter a pena reduzida.

A responsabilidade que recai sobre as mulheres

Quando se diz que um homem agiu porque estava fora de si, a pergunta que surge, ainda que de forma implícita, é: “o que ela fez para provocar isso?”.

Segundo a especialista, a mulher passa a ocupar o lugar de gatilho emocional. “Ela o tirou do sério”, “ela o confrontou”, “ela sabia que ele não estava bem”. Assim, a vítima vai sendo lentamente deslocada do centro da violência para a explicação do ato que ela própria sofreu, afirma.

A narrativa da insanidade não apenas retira a responsabilidade do agressor como reproduz uma lógica antiga, muito semelhante à da chamada “legítima defesa da honra”, já declarada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal, em que o agressor tinha sua pena atenuada ou até mesmo anulada sob a justificativa de proteger a própria honra.

A forma mudou, mas a essência permanece: a violência masculina segue sendo tratada como uma reação compreensível diante do comportamento feminino.

“Hoje, essa lógica vem embalada em linguagem médica, o que pode torná-la mais aceitável socialmente. Mas o efeito é o mesmo: naturaliza a violência, relativiza o crime e silencia a mulher”, acrescenta Bruna.

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