Aplicativos ajudam motoristas a identificar corridas rentáveis em Uber, 99 e InDrive, mas geram debate sobre aumento na recusa de viagens
Motoristas do Rio de Janeiro faturam em média R$ 3.500 por mês, segundo levantamento do GigU, que utiliza dados captados diretamente na tela das plataformas de viagens para ajudar condutores a maximizar seus ganhos
Por Marcos Furtado — Rio de Janeiro
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_1f551ea7087a47f39ead75f64041559a/internal_photos/bs/2025/4/q/Ax4fkbQMGWQAfzyQ5saw/tela-de-celular-com-notificacao-do-gigu-sobre-app-da-uber.jpeg)
Motoristas de aplicativos que rodam na cidade do Rio de Janeiro conseguem ter, em média, R$ 3.542,14 de lucro por mês. O valor coloca a capital fluminense no segundo lugar do ranking nacional, atrás apenas de Pelotas, no Rio Grande do Sul, onde o ganho médio chega a R$ 4.156,84.
Os dados são de um levantamento feito pela GigU — antiga StopClub —, startup que desenvolveu uma ferramenta para ajudar motoristas de plataformas como Uber, 99 e InDrive a identificarem se uma corrida compensa financeiramente.
A pesquisa considerou as cidades com maior número de usuários da função “cálculo de custo”, que mostra quanto o motorista efetivamente gasta para rodar — e, por consequência, quanto está ganhando. Dos mais de 210 mil usuários do aplicativo, 93 mil preencheram os dados de novembro de 2023 até maio deste ano.
Com essas informações, segundo Paolo Kostenbader, líder de Inteligência de Dados da GigU, o sistema gera um diagnóstico completo da operação:
— Para ele aumentar a performance, indicamos quais corridas têm mais chance de trazer um retorno maior.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_1f551ea7087a47f39ead75f64041559a/internal_photos/bs/2025/Q/x/XTOFJ2ThWUkRYPXMTSzg/extra-22-06-web-valores-motoristas-de-aplicativo.png)
Números de levantamento de ganhos e custos financeiros de motoristas de aplicativos — Foto: GigU
Custos de combustível e aluguel de carros
Segundo o levantamento, os 20,7 mil motoristas de apps que utilizam a GigU no Rio gastam, em média, R$ 2.228,57 por mês somente com combustível.
Outro fator que pesa no bolso é o da locação de carros: 24% dos motoristas da cidade alugam veículos para trabalhar, o que eleva ainda mais as despesas mensais. Somando todos os custos operacionais, os condutores do Rio desembolsam, em média, R$ 50.065,71 por ano para se manterem na ativa.
Foco nos lucros
A GigU consegue cruzar o valor da corrida com a distância e o tempo estimados. O motorista, por sua vez, define parâmetros, como valores mínimos que deseja ganhar por quilômetro, minuto e hora.
O aplicativo consegue analisar os dados no momento em que a oferta da corrida surge na tela dos principais aplicativos, como Uber, 99, InDrive e, mais recentemente, o iFood, ainda em fase experimental — diz Kostenbader.
Por meio dos critérios estabelecidos pelos condutores, o app envia mensagens com um sistema de cores, chamado de “semáforo inteligente”, indicando verde para corridas lucrativas, amarelo para as que mal cobrem os custos e vermelho para as que devem gerar prejuízo. Além disso, o motorista pode consultar o histórico detalhado com valores recebidos por quilômetro e por tempo, o que permite acompanhar seu desempenho.
Resposta rápida para os motoristas
Segundo a GigU, as informações sobre a rentabilidade da corrida são enviadas em 0,6 segundo. Essa agilidade é essencial para o motorista, já que apps como Uber e 99 costumam dar somente cinco segundos para aceitar ou recusar uma corrida, segundo os condutores ouvidos pelo EXTRA.
O motorista Maycon Kanaan afirma que passou a lucrar mais desde que começou a usar a GigU. Antes, diz ele, ao rodar cerca de 300 quilômetros com corridas mal remuneradas — com pagamento de R$ 1,50 a R$ 1,60 por quilômetro —, o rendimento girava em torno de R$ 450.
— Agora, consigo selecionar melhor e passei a ganhar R$ 800 com a mesma quilometragem — conta.
Atualmente, a GigU analisa a possibilidade de incluir filtros para o condutor escolher os bairros onde deseja rodar.
— Só que isso esbarra em alguns problemas. Como vamos determinar que um bairro é ruim? — pondera Luiz Neves, cofundador e CEO da GigU.
Uber questiona na Justiça ‘cálculo’ e ‘recusa automática’
O uso de ferramentas auxiliares por motoristas de aplicativos tem incomodado a Uber. Em ação judicial movida contra a StopClub — dos mesmos fundadores da GigU — , o app de transporte acusa a startup de concorrência desleal e afirma que duas funcionalidades — “cálculo de ganhos” e “recusa automática” — acessam indevidamente dados de sua plataforma.
Além do “cálculo de ganhos”, que apresenta a rentabilidade das corridas, a “recusa automática” — por enquanto disponível somento antigo app StopClub — rejeita viagens que não atendam aos critérios estabelecidos pelo motorista, sem que isso necessite ser feito manualmente. Segundo a Uber, esse tipo de recurso interfere no funcionamento do serviço.
A empresa chegou a obter liminar na 2ª Vara Empresarial de São Paulo, obrigando a suspensão das funções sob multa diária de R$ 50 mil, limitada a R$ 5 milhões. No entanto, o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP) derrubou a decisão, por unanimidade, por falta de provas técnicas de que as ferramentas causassem dano direto.
— A Justiça reconheceu que não se pode interditar uma tecnologia sem perícia – diz Bruna Kusumoto, especialista em Direito Digital.
O processo está em fase de produção de provas. As empresas devem indicar um perito para avaliar a interação entre os sistemas. A StopClub também denunciou a Uber ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) por abuso de poder econômico, alegando que a plataforma teria pressionado motoristas a desinstalarem o app rival.
— Estamos diante de uma encruzilhada regulatória: proteger o poder de escolha dos motoristas e, ao mesmo tempo, garantir que a inovação não prejudique o consumidor final. Mas sufocar startups sem perícia, com liminares exageradas ou alegações genéricas, compromete a liberdade econômica e a inovação digital no país — avalia a advogada.
Procurada, a Uber afirmou que usa todos os recursos possíveis para proteger sua plataforma. Declarou ainda que “não é permitido o uso de ferramentas de automação que impactem negativamente no equilíbrio da plataforma”.



